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Crise reduz oferta de consignado


Um dos aspectos mais duros da crise é a mudança no perfil das linhas de crédito: saem as modalidades mais baratas, entram as mais caras. Uma das vítimas é o crédito consignado, cujas concessões médias mensais recuaram de R$ 3,6 bilhões, em setembro, para R$ 2,83 bilhões em dezembro, uma queda de 21%. Em janeiro houve recuperação do patamar pré-crise, R$ 3,44 bilhões, mas ainda longe do pico de R$ 5 bilhões do começo do ano passado.A maior redução se deu para empregados da iniciativa privada, que era uma das apostas dos bancos grandes antes do agravamento da crise. A modalidade apresentou forte recuo nos últimos meses do ano. O saldo, na casa dos R$ 10 bilhões, se manteve praticamente estável desde outubro (alta de 0,7%), indicando que as novas concessões praticamente secaram.As operações com funcionários públicos também recuaram por conta das dificuldades de liquidez por que passaram os bancos médios, principais instituições desse nicho de mercado.Como o empréstimo em consignação também já apresentava desempenho fraco nos empréstimos para aposentados e pensionistas do INSS, a expectativa para este ano é que a linha tenha crescimento bem mais modesto, por volta de 15%, interrompendo um ciclo de forte expansão nos últimos anos - em janeiro o saldo foi a R$ 79,5 bilhões, avanço anual de 20,7%.Os empréstimos em consignação, cujas parcelas são descontadas diretamente do salário, foi um dos carros-chefes do período de forte expansão do crédito nos últimos anos. A linha chegou a ter crescimentos de mais de 100% do saldo, com forte atuação dos correspondentes bancários (pastinhas) de instituições médias.As vantagens para os clientes eram os juros mais baixos e os prazos mais longos, que chegaram a superar os 60 meses. Para os bancos de médio porte, o atrativo era a baixa inadimplência e a possibilidade de captar recursos com títulos lastreados nesses ativos.A modalidade poderia ser, portanto, uma alternativa no atual cenário de turbulência financeira, por ser uma opção de dívida mais barata em meio a alta dos spreads praticados pelos bancos em diversas linhas.Poderia ser também uma saída mais segura para os bancos, dentro da visão dessas instituições de que a inadimplência pode piorar nos próximos meses - o nível de atrasos acima de noventa dias chega a ser inferior a 1% em algumas carteiras de consignado.O problema é que, no caso do crédito para funcionários de empresas privadas, o último trimestre do ano representou um momento de incerteza quanto ao desempenho das companhias empregadoras e de aumento do risco de desemprego.Osmar Roncolato, superintendente do Bradesco e diretor-adjunto de crédito da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pondera ainda que o fim de ano apresenta menor crescimento dessa modalidade pois as famílias já contam com mais recursos oriundos do décimo-terceiro salário.De uma maneira mais ampla, avalia Roncolato, o consignado já atingiu a maturidade e já vem apresentando crescimento em linha com as outras modalidades. "Teremos um crescimento normal daqui para frente".Essa visão é compartilhada por Hélio Duarte, diretor do HSBC e da Febraban. Ele ressalta ainda que não apenas o consignado sofreu desaceleração, mas que o ritmo começa a ser retomado. "Houve uma queda de demanda e aos poucos o crédito está voltando."A desaceleração da modalidade vem desde 2007, por conta de uma saturação natural depois que a demanda reprimida foi atendida. Os empréstimos para os aposentados e pensionistas seguem essa mesma tendência, mas nesse caso o problema é anterior à crise. As dificuldades começaram no início do ano passado, quando o INSS alterou o limite de endividamento de 30% para 20% - com 10% reservado para o cartão de crédito consignado.Do fim de 2007 para meados de 2008, as concessões mensais caíram de 700 mil novos contratos para cerca de 400 mil. Em novembro, último dado disponível, foram realizadas pouco mais de 16 mil operações com aposentados do INSS, volume irrisório quando comparado à média mensal de 600 mil contratos nos últimos três anos.Mas a crise pode representar um certo alívio para esse segmento. Alguns bancos acreditam que talvez possa haver uma recuperação da linha com as pessoas voltando a demandar esse empréstimos para trocar dívidas mais caras contraídas desde o fim do ano passado.Essa é a tese de Ricardo Gelbaum, diretor-executivo do banco BMG. "Nesse cenário é difícil fazer previsões, mas todos nós temos algumas teses, algumas hipóteses e acho que pode ter início um novo ciclo para o consignado."Segundo Gelbaum, as pessoas poderiam voltar a demandar consignado para pagar dívidas ou para suprir deficiências orçamentarias das famílias nesse momento de crise. "Pode repetir o que aconteceu no começo do consignado."Fonte: jornal Valor Econômico 02/03/2009 - Fernando Travaglini

 
 
 
 
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